É um NÃO aos castigos?

Muito se tem falado sobre o impacto negativo do bater ou da palmada como forma de correção do comportamento da criança (e não só!) e cada vez mais temos assistido ao debate sobre o papel dos castigos. É de facto importantíssimo que estes temas ganhem destaque no domínio da parentalidade, pois, não só permitem aumentar o nível de consciencialização dos pais quanto às suas práticas educativas, como também poderá contribuir para a utilização de métodos mais conscientes, positivos e saudáveis ao desenvolvimento das suas crianças.

A verdade é que está mais que comprovado que a forma como os pais falam, o que dizem, o que fazem e a forma como interagem com as suas crianças tem influência no desenvolvimento cerebral das mesmas, pelo que o ato de bater e os castigos têm vindo a ser associados, a nível científico, a práticas prejudiciais ao desenvolvimento saudável das crianças. Apesar de cada vez mais haver acesso a informação científica e fidedigna, ainda existem muitos mitos e ideias tradicionais associados às práticas parentais que se vão mantendo de geração em geração e que, muitas vezes, são difíceis de contrariar, pois estão muito presentes no meio familiar. Deste modo, um conselho que dou aos pais é que se informem, antes de tudo, junto de profissionais qualificados e que prefiram confiar na sua intuição do que na opinião alheia.

Já o tema da palmada deu muito que falar (e ainda continua), o que possibilitou abrir novos caminhos/visões sobre o mundo da parentalidade. Procurou-se explicar, por exemplo, que a palmada apenas leva à colaboração da criança por medo e que é a boa relação afetiva entre cuidadores e criança que permite a colaboração por amor, por respeito e por empatia. Mais recentemente tem surgido um debate mais centrado nas consequências dos castigos, pois a forma como são encarados podem ser altamente prejudiciais ao desenvolvimento saudável das crianças.

O castigo sempre esteve associado a um mau comportamento e dessa forma traz consigo uma conotação negativa – quase como quem comete erros, deva ser castigado. Já viram o que seria se a um adulto lhe fosse descontado um valor no ordenado por cada erro ou falha que cometesse no seu local de trabalho? Se isto parece absurdo para nós adultos, porque haveria de fazer sentido no caso de uma criança que ainda está em desenvolvimento e em constante aprendizagem? Que vantagens traz colocar uma criança de castigo assim que comete algum erro, quando lhe podemos ensinar a sair-se melhor?.  Além disso, muitas vezes o castigo é usado como uma forma de ensinar uma lição à criança, para que esta aprenda que aquele comportamento não está correto e que não deve ser repetido. Contudo, não é isso que as crianças aprendem com o castigo, especialmente se tiverem menos de 4/5 anos de idade, pois o seu cérebro não está desenvolvido o suficiente, para que consigam processar as relações de causa e efeito. Por outro lado, mesmo em crianças mais crescidas, o que verdadeiramente acontece durante o castigo é a criança achar que o adulto não gosta dela, que ela não é capaz de fazer as coisas sozinha, que ninguém se interessa por conhecer os seus motivos, entre outros, prejudicando o desenvolvimento de uma boa autoestima e autoconceito, assim como a relação com os seus cuidadores.

 

 

MAS, ENTÃO, SE É UM NÃO AOS CASTIGOS, O QUE PODE SER FEITO?

Pode mostrar à criança quais as consequências naturais dos seus comportamentos ou, quando não é possível, pode juntamente com ela determinar quais serão as consequências do seu comportamento. Para facilitar a compreensão vou deixar, de seguida, alguns exemplos:

No caso de uma criança que tenha batido noutra será importante mostrar-lhe que o/a amigo/a ficou magoado/a e que por essa razão poderá não querer voltar a brincar novamente consigo, pelo que pedir-lhe desculpa ajudará a resolver o problema.


No caso de uma criança que optou por não se abrigar da chuva terá como consequência natural passar pela situação desconfortável de andar com a roupa molhada.


No caso de uma criança que se recuse a arrumar os seus brinquedos depois de os ter espalhado por todo o lado, os pais podem estabelecer a norma de que a criança não poderá brincar com um novo brinquedo até que os restantes estejam arrumados.


No caso de uma criança que tenha danificado algum objeto pertencente a uma outra pessoa poderá ter como consequência dirigir-se à pessoa em questão e pedir desculpa, perguntando-lhe o que pode fazer para ajudar a remediar a situação. Se a criança não for capaz de o fazer sozinha, os pais devem auxiliá-la neste processo.

 

 

A importância de se optar por uma consequência e não por um castigo é que a consequência pretende responsabilizar a criança pelo seu comportamento e não penalizá-la ou fazê-la sentir-se culpada. Além disso, a consequência está inteiramente relacionada com o comportamento desajustado e pretende, acima de tudo, auxiliar a criança a reparar o mal que foi feito, a fazer as suas próprias escolhas, considerando as consequências de cada uma delas, e ensinar alternativas ao seu comportamento. Desta forma, estamos a contribuir para que a criança aja em prol da verdade, sem receios de ser castigada; se sinta amada e apoiada, mesmo quando comete erros; e, aumente a conexão entre cuidadores e criança, pois há compreensão e empatia.

Deixar um comentário:

O seu email não será publicado.

Site Footer