1, 2, 3 … de volta à escola outra vez!

O início de um novo ano letivo é um momento de renovação e oportunidade, mas também pode trazer consigo desafios emocionais e comportamentais. Entre o entusiasmo de voltar a rever professores e amigos e o stress causado pelo aproximar de trabalhos de casa, fichas de avaliação, e menos tempo de brincadeira, o desafio é voltar à rotina de forma calma e positiva.

Para as crianças, o dia-a-dia de aprendizagem implica a utilização de várias competências não contempladas nas atividades de verão, como a capacidade de estar atento e sossegado, de organização, de permanência em tarefa e de adaptação a uma nova rotina diária altamente estruturada. A escola exige também que as crianças se separem dos pais e interajam com os colegas. Tarefas extremamente desafiantes para qualquer criança, mas principalmente para aquelas com perturbações do neurodesenvolvimento e/ou ansiedade.

Para os pais, o regresso às aulas representa o início da azáfama na preparação de roupas, lanches e mochilas, bem como o ajuste nos seus horários para agilizar, atempadamente, o transporte de e para a escola. Significa passar finais de dia a fazer trabalhos de casa e estabelecer esforços no sentido de transformar o tempo familiar reduzido em momentos de qualidade e memórias felizes.

Assim, chegado o período de restabelecer rotinas, é importante que esta transição seja leve e relaxada. Por isso, considere as seguintes estratégias para promover uma adaptação mais tranquila para toda a família:

Rotinas, rotinas e… rotinas!

A rotina escolar envolve horários e compromissos rigorosos, altamente contrastantes com a flexibilidade experienciada durante as férias. Para minimizar o impacto desta transição, desenvolva e implemente, gradualmente, rotinas simples. Rotinas simples são tarefas pequenas e realizáveis que a criança repete diariamente. Uma rotina simples para dormir pode incluir lavar os dentes e preparar as roupas para o dia seguinte. Uma rotina simples na hora das refeições pode envolver guardar os brinquedos e colocar o prato dentro da banca. O uso de rotinas simples pode ajudar a criança a concentrar-se e a concluir facilmente pequenas tarefas, contribuindo para o aumento da confiança nas suas capacidades. Coloque um calendário ou uma listagem das rotinas num sítio de passagem e promova, também, a autonomia da criança.

Assim, uma a duas semanas antes do início das aulas, procure retomar os horários de sono, refeições e atividades diárias.

Sugestões práticas:

Acerte o despertador para sinalizar a nova hora de dormir e de acordar. A falta de um sono reparador e de qualidade pode comprometer de forma significativa o rendimento escolar e, a longo prazo, o desenvolvimento e saúde da criança. Assim, procure certificar-se que é cumprido o período de horas de sono recomendado para o seu filho de acordo com a sua faixa etária (3 aos 5 anos: 10 a 13 horas por dia; 6 aos 12 anos: 9 a 12 horas por dia; 13 aos 18 anos: 8 a 10 horas por dia).

Coloque as rotinas em prática. Comece a ajustar os horários das tarefas diárias, aproximando-os das rotinas que serão adotadas durante o período escolar. Incentive também a realização de atividades calmas no final do dia, como leitura ou desenho, para promover o relaxamento antes de dormir.

Aproveite a ocasião para diminuir a exposição aos ecrãs. Por exemplo, pode implementar uma hora de acesso à TV, consola, tablet ou telemóvel após a realização dos trabalhos de casa e antes da hora de jantar. Para uma higiene do sono adequada, certifique-se que a criança deixa de ter acesso a estes aparelhos pelo menos duas horas antes de dormir.

Discutam, em família, a possibilidade de integração de atividades extracurriculares (ex.: desporto, dança, música) no horário da criança e de que forma terão impacto nas rotinas pré-estabelecidas.

Envolva a criança. Pode ser difícil para a criança sentir que os pais têm controlo sobre todos os aspetos do dia-a-dia. Assim, torna-se importante envolvê-la no planeamento das rotinas, providenciando possibilidades de escolha. Estas escolhas incidem na tarefa a realizar, quando ou em que sequência e têm como objetivo aumentar a prontidão da criança para a realização das tarefas. Contudo, é importante que se certifique que as opções que apresenta à criança estão dentro daquilo que considera aceitável. Veja o exemplo que se segue: 


Implemente sistemas de recompensas. Porque pode ser muito aborrecido realizar as tarefas de rotina diária (nós adultos bem sabemos!), recompense a criança pelo seu esforço. Estes incentivos podem ser simples, como elogios, ou elaborados, como sistemas de pontos ou autocolantes que a criança ganha por completar tarefas específicas. Os pontos ou autocolantes podem, depois, ser trocados por recompensas, como um jantar especial ou uma atividade em família. Veja o exemplo que se segue:

Cada tarefa completa equivale a um ponto; três pontos permitem escolher uma sobremesa especial no fim-de-semana, cinco pontos a escolha de uma atividade para realizar em casa com a família e sete pontos a uma ida ao parque. Adeque os incentivos à idade e gostos da criança e à dificuldade das tarefas.

Organização

Saber gerir o tempo e os recursos de forma eficiente é essencial para enfrentar as exigências do ambiente escolar. Preparar materiais escolares com antecedência, organizar horários de estudo e manter um espaço de trabalho adequado são práticas que ajudam a criança a sentir-se mais confiante e preparada.

Sugestão prática:

A designação e organização prévias do espaço de trabalho é essencial: um ambiente de estudo favorável ajudará a criança a concentrar-se melhor! Em conjunto, estabeleçam qual o melhor local para trabalhar. É importante que este seja um local bem iluminado e sossegado, longe das áreas de passagem e de outros elementos propícios a distrações (ex.: televisão, brinquedos, entre outros). De seguida, organizem a zona de estudo, atribuindo um local específico para livros, cadernos, folhas e canetas. Adicionalmente, podem realizar a compra do material escolar em conjunto, para que a criança se sinta motivada e integrada no processo.

Comunicação e suporte emocional

O regresso às aulas pode desencadear sentimentos de ansiedade e stress nas crianças, especialmente quando existem dificuldades prévias ou são expectáveis mudanças significativas, como iniciar um novo ciclo de ensino ou mudar de escola. Por isso, um ambiente de estabilidade emocional, onde a criança se sinta segura para expressar os seus medos ou dúvidas, é essencial. Ouvir atentamente e validar os sentimentos da criança, sem julgar, é fundamental para que ela se sinta compreendida e apoiada.

Sugestão prática:

Procure estabelecer momentos de conversa diários com a criança antes do início das aulas. Pergunte-lhe como se sente em relação ao regresso à escola e mostre disponibilidade para ouvir as suas preocupações, sem impor soluções imediatas. Procure ajustar expetativas, se necessário, e partilhe as suas próprias experiências para que a criança se sinta compreendida e acolhida. Procure manter este padrão de comunicação durante o ano letivo, fazendo questões abertas (i.e., que não solicitem apenas uma resposta taxativa) sobre o dia-a-dia da criança. Veja os exemplos que se seguem:

  • “A escola está quase a começar? Como te sentes em relação a este ano letivo?”
  • “Ensina-me alguma coisa que tenhas aprendido hoje.”
  • “O que é que gostaste mais no teu dia?” ou “Qual foi a coisa mais divertida que fizeste na escola hoje?”
  • “Qual foi o maior desafio de hoje? ” ou “Qual o trabalho mais desafiante que fizeste hoje?”
  • “Como é que te sentes/sentiste?”
  • “Com quem é que falaste mais hoje?”
  • “Quais dos teus amigos estão na tua sala? E na escola?”
  • “O que é que a maioria das crianças fez no recreio?”
  • “O que foi o almoço?”
Evite realizar questões que não requeiram respostas específicas, por exemplo: “Como correu a escola?”, “Divertiste-te?”, “Aprendeste coisas novas?” ou “Trabalhaste muito?”.
E porque nem tudo tem de ser aborrecido, planeie uma pequena festa de despedida das férias! Convide família e amigos, envolva a criança no planeamento e decoração e divirtam-se, criando boas memórias sem pensar no amanhã.

O regresso às aulas é uma etapa significativa e complexa, envolvendo aspetos académicos, comportamentais e emocionais. Perante dificuldades de adaptação ou de aprendizagem, procure o apoio de profissionais especializados para avaliar e intervir de forma adequada, promovendo o pleno desenvolvimento da criança.

Votos de um ano letivo harmonioso e enriquecedor!

Andreia Veloso

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