Quais os medos normativos/esperados nas crianças?

Antes de responder à questão levantada, é importante salientar que o medo é uma resposta natural do nosso corpo perante um estímulo que ameaça o nosso bem-estar e segurança, pelo que tem tendência a desaparecer, assim que o estímulo ameaçador desaparece.

Podemos dizer que estamos perante a emoção medo quando estamos na presença de sintomas cognitivos, afetivos, fisiológicos, comportamentais e/ou relacionais, isto é, quando o estímulo ou a situação é percebida como ameaçadora ou perigosa; aparecem sentimentos de nervosismo, tensão e inquietação; e, o nosso corpo inicia um conjunto de ativações fisiológicas que nos preparam para eliminar a ameaça, seja através da luta ou da fuga (apesar de que, por vezes, dado o perigo extremo, a pessoa pode ficar sem reação, ou seja, paralisada). Desta forma, podemos concluir que está claro que o medo é uma resposta adaptativa ao perigo e que tem um papel fundamental na nossa sobrevivência, já que tem a função de alarme, preparação e proteção contra possíveis ameaças.

Tendo em conta que o medo implica uma componente avaliativa da situação de ameaça e que está dependente do desenvolvimento cognitivo e social é errado pensar que, com o avançar da idade, o medo exista cada vez menos. A verdade é que o medo, ao longo do desenvolvimento, vai assumindo representações diferentes, assim como as fontes causadoras desta emoção.

Nos primeiros seis meses, uma estimulação sensorial excessiva ou inesperada é causadora de medo, como é o caso dos sons altos e da perda de suporte. Mais tarde, entre os seis e os nove meses, surge o medo associado a pessoas estranhas e a estímulos novos, como é o caso das máscaras e alturas.

Contudo, assim que a perceção da constância do objeto e as relações de causa-efeito se desenvolvem, a partir de 1 ano, aparece o medo associado à separação das figuras de vinculação, o medo do dano, nomeadamente físico (p.e., quedas e intervenções médicas), e em determinados rituais de higiene.

Aos dois anos, durante o estádio pré-operatório, a capacidade de brincar ao faz de conta e a imaginação desenvolvem-se, contudo a capacidade que permite a distinção da fantasia da realidade ainda não está adquirida e a criança começa a temer as criaturas imaginárias e sobrenaturais.

Aos três anos é esperado o medo associado a cães e animais grandes, pois apresentam características e movimentos que a criança não controla. Além disso, surge o medo de estar sozinho/a, mesmo que consiga ouvir a voz das figuras cuidadoras.

Aos 4 anos, aparece o medo do escuro, mais especificamente na hora de adormecer.

Entre os 6 e os 12 anos, durante o estádio operatório-concreto, surge o medo em relação a certos aspetos da escola (p.e., o medo de não ter aproveitamento escolar), dos acontecimentos naturais (p.e., tsunamis, trovões e epidemias) e a ansiedade social (associada, por exemplo, à comparação com os outros e à aparência física).

Dos 13 aos 18 anos, a capacidade abstrata emerge, pelo que o/a jovem consegue projetar o que irá acontecer no futuro e antecipar os perigos, surgindo os medos relacionados com a rejeição dos pares, a alienação social e o macabro.

Apesar de todos estes medos serem expectáveis a determinada fase do desenvolvimento, é de salientar que não benéfico por parte dos cuidadores desvalorizar o medo, promovendo sim a aceitação do mesmo e formas adaptativas de o enfrentar.

Dra. Sara Freitas

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